
Após mas um gole de café ele acendeu seu cigarro, a fumaça cinzenta e o cheiro desagradável parece não ter irritado as pessoas que ali estavam.
Todos permaneceram quietos e o fitavam a espera de algo. Ele esticou os finos lábios a procura de obter um sorriso, sua tentativa havia sido em vão. Derrotado e ao som de um velho violão, ele tirou um caderno do bolso e olhou todas aquelas pessoas antes de começar a ler.
" Queria eu poder sentir
Quem sabe a dor de não existir
Ou a alegria de simples mente sorrir.
Sou o botão de flor que não abriu
A folha seca que não caiu
O menino indefeso que desistiu.
Sou um sonho acordado
O brinquedo despedaçado
Um louco apaixonado."
O violão aos poucos foi parando sua triste melodia enquanto o pobre poeta recitava seus versos para aqueles poucos ouvintes.
" Sou um mistério
Um enigma faltando um pedaço
Já não respiro
Apenas existo."
Ao terminar seus versos, o poeta fechou o caderno de cores tristes e folhas desgastadas. O vento que até então havia permanecido em silêncio, fez soar seu grito frio. Todos daquela taverna, inclusive o poeta, sabiam que a chuva estava por vir.
Mas, nem a força do vento, e o som dos trovões intimidaram aquele homem de alma repleta pela melancolia.
Após mas um gole de café, ele levantou-se, saindo e deixando para trás um pouco de sua identidade.
Fazia frio, e os pingos de chuva pareciam pedras afiadas a tocar aquele rosto tão frágil.
Sentiu vontade de chorar, mas a chuva já havia feito isso por ele. Teve vontade de gritar, deixar sair tudo que o fazia mal.
Mas ele não gritou, muito menos chorou.
Apenas sentou em um banco molhado, e esperou. Não havia pressa em seu olhar, nem tão pouco sorriso em seus lábios.
As horas passaram, a chuva veio e se foi, deixando apenas o céu coberto pelas nuvens escuras.
E ele continuava lá, esperando sem ao menos saber pelo quê.
A lua, que do céu observava tudo, decidiu sair e iluminar um pouco a noite daquele poeta tão triste. O brilho prateado bateu em seu rosto, fazendo o poeta erguer sua cabeça para olhar aquela lua tão linda.
Os dois, entre-olharam-se por algum tempo antes do silêncio ser cortado.
-Ô lua, tu que és tão bela, que brilha e confidencia o amor entre os apaixonados, que vaga pela noite, me digas, por que sofro tanto, será que não tenho direito de encontrar a felicidade?-
Perguntou o poeta.
A lua, surpresa com a pergunta, e admirada com suas palavras, indagou.
-Não reprima-se desta forma, tu tens tudo, ô poeta. Podes andar sob o solo, sentir o cheiro que as flores soltam, e nunca está sozinho. Já eu, olhe para mim, vago pela noite sozinha, posso ver tudo, confidenciar tudo, mas nunca fazer parte de nada.-
O poeta, encantado com as palavras da lua, ficou em silêncio, vagando entre sua mente a procura de algo adequado para falar.
-Tens a noite, ô iluminada lua. As estrelas fazem-te companhia, o vento que sopra entre as folhas das árvores, tens o orvalho, a escuridão, e o sonho de todos que dormem enquanto tu brilhas.-
Afirmou o poeta.
-Sim, meu caro rapaz, de fato sou privilegiada com todas essas coisas. Mas falta-me alguém com quem compartilhe meus sonhos, com quem eu possa sorrir, chorar, cantar, recitar.-
Foi a partir daquele momento que o poeta pode ver que ambos precisavam da mesma coisa, e que por mais diferente que fosse, havia algo igual entre eles.
-A partir de hoje tu terás a mim, e eu terei a tu. Minhas noites terão brilho, e em troca, ouviras meus poemas, compartilharemos tudo. Enquanto tu estiver no céu, eu estarei aqui.-
E foi assim noite após noite, sempre ao sair do horizonte, a lua encontrava o poeta. O mesmo lia seus pobres versos, enquanto a lua, atenta ouvia cada detalhe e sorria encantada com as palavras daquele homem tão misterioso e ao mesmo tempo tão encantador.
Ao passar do tempo o poeta foi adquirindo abetos diferentes, dormia durante o dia, e ao por do sol acordava-se. Seu ciclo de amigos foi ficando cada vez menor. Mas o poeta não importava-se, a ausência de seus amigos não o fazia falta. Ele estava muito mais feliz e realizado tendo a lua como confidente do que qualquer outra pessoa.
[...]
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